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( 14/12/2016 ) Nossos alimentos têm história, entrevista com Antonio Augusto, da Rede Slow Food
 


Agricultor da Rede Slow Food cita o butiá para inspirar trabalho de valorização da banana orgânica do Litoral Norte do Rio Grande do Sul e Sul de Santa Catarina.

Antonio Augusto Mendes dos Santos, da Rede Slow Food, coordenador da Comunidade do Alimento Butiá sem Fronteiras, que está criando a Fortaleza do Butiá Sem Fronteiras, foi um dos palestrantes do Encontro sobre Banana Orgânica em Santa Rosa do Su, em Santa Catarina, no início de dezembro de 2016. Nesta entrevista, o agricultor explica como o selo de origem geográfica de um alimento pode contribuir para desenvolver uma região e defende a ideia de criar a identidade de origem para a banana orgânica do Litoral Norte do Rio Grande do Sul e Sul de Santa Catarina.

Centro Ecológico - Onde fica a Comunidade Butiá Sem Fronteiras?
Antonio Augusto - Pega o pessoal da região de Laguna, Imaruí, Imbituba, Jaguaruna e teve pessoas aqui também que participaram conosco de Passo de Torres.

Desde quando essa comunidade está se organizando?
Na verdade o trabalho com butiá no Sul do Brasil ele é antiguíssimo. A gente tem histórias assim de Jaguaruna que trabalhavam nas décadas de 1940 e 1950 com as crinas da folha do Butiá que iam para o Rio de Janeiro pra fazer enchimento de colchões. A questão do butiá na cachaça e o suco de butiá é algo muito vivo tanto entre os gaúchos quanto entre os catarinenses, lembrando que o pessoal do Rio Grande do Sul ainda tem um ditado que a gente sempre usa, como expressão de surpresa: “mas bah, me caiu os butiá do bolso”.

Como o Slow Food trabalha esses alimentos como o butiá?
O Slow Food ele trabalha no mundo inteiro – 170 países- , com essa preservação do alimento, do lindo, do bom e do justo, do produto local, sem você estar trazendo um produto de muito longe, que não é do teu hábito alimentar, resgatando alimentos que estão caindo no esquecimento. Agora a gente está trabalhando muito forte a araruta, porque ela não contém glúten, porque ela é maravilhosa, porque o sabor é muito bom e ela pode ser usada em várias receitas, doces, salgadas, tal qual o butiá. Então a gente também está trabalhando muito essa questão do butiá porque a cada dois anos nós vamos até Turim, na Itália, onde a gente tem um encontro que o Slow Food faz, que chama Arca do Gosto, em que todos os produtos do mundo que estão dentro da arca estão presentes. A gente leva o butiá de Santa Catarina e agora o butiá do Rio Grande do Sul, do Uruguai. Ou seja, nós tiramos as barreiras de fronteira pra trabalhar com o butiá em todos os lugares que ele existe. A Fortaleza do Butiá será em Santa Catarina e se criarão comunidades da variedade odorata , capitata, que são outras variedades que você vai ver a ocorrência em Tapes, em Minas do Butiá, onde eu morei, ou seja, onde tem butiá a gente quer trabalhar sabores e saberes.

Esse do Uruguai é de qual região?
Eu não estive lá. Quem esteve lá foi a pesquisadora da Embrapa Pelotas Rosa Lia Barbiere, que criou no RS a Rota dos Butiazais e nos auxilia para criar a Rota dos Butiás Catarinenses, também onde eles se encontram. O interessante é que eu trabalho com licor. No meu licor ele é cozido o fruto com açúcar. No licor do Uruguai eles fazem o açúcar queimado e depois acrescentam o butiá. Então é uma diferença, é um sabor diferente, é um saber diferente, e é isso que a gente quer trabalhar, fortalecendo o fruto. As variedades são várias. Se você pegar a maçã, são várias variedades, a batata, que todo mundo diz que é inglesa, mas a gente sabe que é peruana, mais de 4.300 variedades. É isso, a gente quer trabalhar um alimento, fortalecendo ele, pra que onde ele estiver ele gere renda, estabilidade financeira pras pessoas, retorne dignidade. A gente vê muita gente na BR 101 aqui, na beira de faixa, vendendo saquinho de butiá, cachaça, suco, mas com a qualidade ruim. A gente quer que eles continuem vendendo, mas que eles coloquem qualidade, que eles agreguem valor, que eles coloquem principalmente a história desse alimento, que é o que diferencia trabalhar com a Rede Ecovida, trabalhar com o Slow Food. Nossos alimentos têm história, então eu quando vou vender o meu produto, com meu filho, ele não pode vender porque ele tem 11 anos, mas ele pode contar a história daquilo que nós estamos produzindo, e isso faz uma grande diferença pra quem consome.


Em relação à banana, essa banana da região tem a ver o Movimento Slow Food?
Tudo. Porque quando você trata um alimento numa região, é aquilo que a gente tá fazendo com o butiá, a gente tem que se unir, pra trocar esses conhecimentos. Essa troca, ela permite que você expanda bastante seus pensamentos, seus horizontes em relação aquilo que você pode fazer com esse produto. Quando você vai na Europa, boa parte dos produtos têm um selo de origem, e esse selo de origem a gente trabalha ele dentro do Slow Food. Porque quando ele vai lá tem o Queijo da Canastra, então você sabe que é um queijo que é originária somente daquela região do Brasil, e típico daquele local. Então com isso você fortalece aquelas pessoas que trabalham com esse queijo e dá uma identidade alimentar para aquele produto, agregando valor.

Então existe intenção de fazer esse selo de origem da banana a partir do encontro?

Sim, porque têm situações peculiares da produção: o microclima, a variedade do solo, são coisas que se você for analisar você só vai encontrar aqui e há já uma identidade local pra essa banana, pra essa região. Pega os dois estados Sul de Santa Catarina e Litoral Norte do Rio Grande do Sul, então o que seria a região do Vale do Mampituba, está aí, de repente, Banana do Mampituba, como foi levantado antes. Isso vai identificar, quem ouvir já vai saber que ou é do Sul de SC ou Norte do RS. Mas é uma região única que produz essa banana. E você pode elencar dentro disso tudo aí variedades que você queira trabalhar ou a banana maçã, ou uma banana que não é comercial ainda, mas que tem potencial pra ser. Por exemplo, a gente trabalha alguns produtos que comercialmente não têm ainda apelo comercial pra venda, mas a gente vai trabalhando ele devagar, vai inserindo ele aos poucos na alimentação das pessoas e resgatando. Quando a gente fala por exemplo cenoura, a primeira imagem que vem a nossa mente é a cenoura alaranjada,mas as cenouras vermelha, branca preta, roxa, amarela, são deliciosas e são as cenouras que existiam. Então esse resgate é importante: descobrir qual a banana que temos aqui na região que pode ter esse valor de muito tempo sendo produzido por aqui. Essa é uma função nossa também do Slow Food, fomentar que esses agricultores queiram de repente criar um convívio da banana, por que não um grupo de trabalho pra pesquisar e aí sim começa a valorizar. Não é mais banana. Passa a ser a Banana do Mampituba, com história. É isso que a gente quer incutir, que nso temos como agricultores, um poder nas mãos que na maioria das vezes nós desconhecemos, de transformar.

O Encontro sobre banana orgânica foi organizado pelo Núcleo de Desenvolvimento Território Extremo Sul-Catarinense, Núcleo de Desenvolvimento Litoral/RS, Colegiado Território Extremo Sul/SC e Colegiado Territorial Litoral/RS, com apoio da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Conselho Nacional de Desenvolvimento Cietnífico e Tecnológico (CNPq), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs),Rede Ecovida de Agroecologia, Centro Ecológico, Uneagro, Instituto Federal Catarinense (IFC) e Instituto Federal Rio Grande do Sul/Campus Canoas.


   
 

Cursos

23/7
Jornadas Ecológicas - Roda de conversa com Maria José Guazzelli


 

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