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( 02/02/2016 ) Contra falsos orgânicos, agrônomo recomenda informação
 


Foto: Laércio Meirelles em visita a uma agricultora em Cayambe, cidade a 80 quilômetros de Quito. Meirelles esteve no Equador para a reunião do Foro Latino-americano de Sistemas Participativos de Garantia

Desenvolver processos que assegurem ao consumidor a pureza do alimento orgânico e ao agricultor a diferenciação em relação aos produtos não orgânicos, é uma obra a qual o agrônomo Laércio Meirelles se dedica há 25 anos. Especialista em Agroecologia pela Universidade de Andalucia, representante da Rede Ecovida de Agroecologia na Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo), e um dos pioneiros na construção dos Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) no Brasil, Meirelles é constantemente requisitado por organizações e governos de outros países para assessorar a implantação de SPGs. Nesta entrevista por email, o agrônomo, que também é coordenador do Centro Ecológico, responde algumas questões que emergiram após a repercussão de uma reportagem apresentada no programa Fantástico de 31 de janeiro de 2015. A matéria mostrou feirantes comercializando produtos convencionais como sendo orgânicos.

Centro Ecológico - A que você atribui a repercussão da reportagem sobre a venda de produtos não orgânicos como orgânicos?

Laércio Meirelles - Ao crescente interesse pelo tema. Comecei a trabalhar com agricultura orgânica na década de oitenta. Não consigo imaginar que teríamos uma reportagem sobre este tema naquele momento, na Rede Globo, em horário nobre e em Rede Nacional. Hoje a Agricultura Orgânica é uma pauta quente, todos conhecem o termo, gostem ou não de sua proposta.

Nas redes sociais observa-se que a reportagem repercutiu de forma positiva entre as pessoas envolvidas com agricultura orgânica, principalmente entre aquelas que produzem. Mesmo diante dessa percepção, você acha importante a Rede Ecovida se posicionar neste momento? De que forma?

Repercutiu de forma positiva entre aqueles que conhecem o tema e sabem da necessidade de separar quem é sério daqueles que eventualmente querem se aproveitar. Aqueles que se dedicam a produzir dentro dos princípios da agricultura orgânica são sérios, o que não significa dizer que estamos livres de alguns que buscam tirar proveito ilicitamente deste momento de expansão do mercado. A Rede Ecovida promove a Agricultura Orgânica ou Ecológica há quase 20 anos. Dentre suas atividades está a garantia da produção de seus membros. Faz isto através de um método criado por ela e hoje consagrado pela legislação de vários países, o Brasil incluído, que é o Sistema Participativo de Garantia. Assim, estamos tranquilos e absolutamente confiantes no nosso nos nossos produtos e em nosso método, eficaz tanto em garantir a qualidade orgânica quanto em identificar e superar rapidamente eventuais problemas.

Acha que a confiança dos consumidores das feiras orgânicas, cooperativas e lojas pode ser influenciada?

Dos consumidores assíduos não. Conhecem a agricultura orgânica, seus princípios, os produtores e os possíveis mecanismos de certificação. Aqueles eventuais, que estão chegando, podem se sentir em dúvida. Mas estou seguro que ao se informarem verão que 99% da produção e dos produtores são merecedores de total confiança.

Como os consumidores podem ter a certeza de estar comprando um produto orgânico?

Como disse, se informando. Temos uma legislação que prevê mecanismos de garantia através de processos confiáveis. Nesta legislação está previsto a existência de um Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, de fácil acesso no site do Ministério da Agricultura. Todos os produtores orgânicos estão cadastrados neste site. Se querem saber um pouco mais, sugiro visitar os produtores. É um consenso entre nós a política da porteira aberta. Todo produtor orgânico tem prazer em receber seus consumidores e mostrar claramente como trabalha e seus métodos de produção.

Como os agricultores, lojas e cooperativas integrantes da Rede Ecovida podem contribuir para dar mais segurança aos consumidores?

Já fazemos o que está no nosso alcance. Talvez informar mais é o que falta. Materiais informativos simples e de fácil acesso, conversar com os clientes e usar a as redes sociais são bons mecanismos, mostrando nossa cara, nossa responsabilidade com o consumidor e nosso compromisso com o que fazemos.

Muitas famílias, no Brasil e no mundo, produzem sem agrotóxicos, mas não estão inseridas em nenhum sistema de garantia. Que perspectivas você vê para esse segmento?

Esta resposta seria longa. Vou resumir dizendo que Agricultura Orgânica e mercado de produtos orgânicos não são a mesma coisa. Existem muitas motivações para se produzir de forma orgânica, variáveis em função da realidade e da visão de mundo de cada família produtora. Participar do mercado diferenciado é uma destas motivações. Conheço centenas de produtores orgânicos que têm como motivação principal o cuidado com a saúde. Sua, do consumidor e do planeta. Outros se motivam pelos maiores ganhos, o que obviamente não considero nenhum pecado. Em um ou outro caso, para estar no mercado de produtos orgânicos, para usar este adjetivo no seu produto, a legislação brasileira exige que o produtor se insira em algum sistema de garantia. Então, este segmento que você menciona, que produz de maneira orgânica, mas não certifica, vai ter que optar. Quer estar no mercado diferenciado? Tem que buscar um dos métodos de garantia previsto na Lei.

Ao mesmo tempo em que o Brasil lidera a posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo, o mercado de orgânicos deve crescer 35% em 2016, segundo dados de um programa de promoção do setor. É um paradoxo ou mais um reflexo da desigualdade em nosso país, uma vez que muita gente afirma que orgânicos não são acessíveis a todas as pessoas?

Maior o problema, maior o anseio pela busca de soluções. Estamos contaminados, solo, água, pessoas. Devemos, e alguns, queremos, superar este quadro. A Agricultura Orgânica é parte desta solução. Não a acho pouco acessível, não deve ser assim. A Rede Ecovida trabalha por uma Agricultura Orgânica acessível a todos, seja através de mecanismos de mercado ou de políticas publicas, como é o caso da compras escolares de produtos orgânicos para merenda escolar. Este é nosso objetivo, temos trabalhado neste sentido e estamos muito felizes com os resultados até agora. O futuro segue promissor. Nosso entusiasmo segue o mesmo.


   
 

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20/11
Plenária do Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia
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Curso Princípios Básicos em Agricultura Ecológica


 

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