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( 24/07/2012 ) Entrevista: "não adianta fechar a torneira se não mudar o jeito de fazer agricultura"
 


Em um intervalo do Seminário sobre Sistemas Agroflorestais, durante o 8º Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia em Florianópolis (SC), o agrônomo e doutor em Recursos Genéticos Vegetais Walter Steenbock, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, concedeu esta entrevista sobre relação entre mudanças climáticas e as formas de fazer agricultura: a convencional - que usa venenos e fertilizantes químicos - e a ecológica, que integra também os sistemas agroflorestais. Coordenando projetos na Floresta Nacional do Açungui, no Paraná, Steenbock defende a sustentabilidade deste tipo de manejo e o apoio dos consumidores a produtos com procedência.


Qual o peso da agricultura convencional nas mudanças climáticas?
A gente está acostumado a ouvir por exemplo, em relação a água, que 3% da água só do planeta que é a gente pode usar. Na verdade é o que tem de água doce. Um por cento é o que a gente consegue usar. E aí vem uma série de propagandas no meio urbano, pra gente fechar torneira na hora de escovar o dente, cuidar pra lavar o carro. Só que 80 por cento deste um por cento é usado na agricultura convencional, na irrigação, e pra misturar agrotóxico para aplicação nas lavouras. Então esse é um dado consistente e a gente percebe que não vai adiantar muito a gente fechar a torneira se a gente não pensar numa mudança no jeito de fazer agricultura. Um outro aspecto a considerar é o desmatamento: 75% dos gases estufa no Brasil são consequência de desmatamento. Se você somar 75 por cento dos gases de efeito estufa no Basil vindos da agricultura, ou da pecuária, com mais o uso da maior parte da água disponível pra misturar veneno e irrigar soja ou outros produtos do grande aogronegócio, é uma forma completamente insustentável de se fazer agricultura a médio prazo. A influência climática dessa prática agrícola é capaz de, antes ainda de 2050, tornar o uso de recursos naturais insustentável no planeta.

Os sistemas agroflorestais e a agricultura ecológica têm condições de reverter esse quadro?
O grande benefício dos sistemas agroflorestais é produzir comida, junto com biodiversidade e junto com floresta. E gente junto fazendo essa comida e essa biodiversidade. Então nós temos uma limitação de espaço nesse planeta, somos praticamente sete bilhões de pessoas, hoje centralizadas no meio urbano, mas que têm se utilizado do meio rural de uma forma como se fosse gafanhoto,uma forma totalmente exploratória. É necessário que haja um processo de reforma agrária, no Brasil e no mundo,agroecológica, que possa priorizar sistemas agroflorestais se a gente quiser, enquanto espécie, continuar vivendo neste planeta por mais tempo. Produzir comida, junto com produzir biodiversidade, junto com produzir água e pessoas neste processo, é a única forma de a gente conseguir ter um sistema sustentável de produção de alimentos e que gere ao mesmo tempo cidadania, que gere ao mesmo tempo fartura e distribuição de renda.

O que o senhor teria a dizer sobre os estudos que afirmam que as mudanças climáticas não têm relação com a atividade humana?
Existem tentativas de grandes grupos de poder, do mundo inteiro, de colocar publicamente que estas alterações climáticas dos últimos anos são consequências de processos naturais que sempre existiram. Agora, este tipo de informação já foi desmentido por trabalhos científicos de muito calibre, de muitos grupos, mostrando que as mudanças dos últimos 30 anos jamais foram vistas nesta velocidade em termos climáticos do que há registro na história do planeta Terra. Só existe uma coisa diferente nos últimos 30 anos do que em toda a história do planeta Terra: a grande influência do homem, de forma predatória sobre a natureza, cada vez com mais processos predatórios. A gente deve procurar, com grande afinco, com muita força, estimular sistemas produtivos mais saudáveis. E como consumidores viabilizar, ajudar a viabilizar estes sistemas consumindo produtos que você saiba a origem, identificando esses sistemas de produção, para que estes sistemas possam ser valorizados.


Este boletim para rádio resume a entrevista de Steenbock.

A foto acima é da Feira Ecológica Lagoa do Violão, em Torres (RS), que vende aos sábados produtos com procedência.


   
 

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