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( 23/11/2009 ) 800 PARTICIPANTES FORAM A IPÊ PARA O ENCONTRO AMPLIADO DA REDE ECOVIDA
 







Por Fernando Angeoletto

Fidel Mejia é agricultor agroecológico em “El Valle del Tetihuácan”, zona semi-árida do México, e veio à Serra Gaúcha conhecer de perto os Sistemas Participativos de Garantia que se organizam no Sul do Brasil. Ana Paula Pegorer, da ABIO (Associação de Produtores Biológicos – Rio de Janeiro), veio munir-se do fortalecimento em Rede para seguir em sua luta pela Agroecologia. Já Honório Dorado, que cultivou orgânicos do Sudoeste da Bahia ao Norte de Minas, e há 20 anos trabalha no Centro de Agricultura Alternativa de Montes Claros (MG), buscava conhecer novas práticas para agregação de valores aos pequenos rebanhos familiares que possui.

Uniram-se aos quase 800 participantes que vieram ao Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, o maior espaço de articulação e construção de propostas comuns da Rede, que integra mais de 3.000 famílias agricultoras da região Sul. A pacata Ipê, situada no Nordeste gaúcho e com pouco mais de 6 mil habitantes, acolheu um evento de superlativos. A começar pela alimentação durante os 3 dias (13 a 15/11): foram consumidos 300 kg de arroz, 480 kg de galeto, 250 kg de pão e por aí afora, numa extensa lista de ingredientes. A origem dos produtos e o destino dos resíduos merecem destaque: 100% da alimentação foi adquirida dos produtores agroecológicos vinculados à Rede, e a totalidade das sobras orgânicas foi compostada numa oficina do próprio evento.

Capital da Agroecologia
A cidade-anfitriã não poderia ser mais adequada: detém o título de Capital Nacional da Agroecologia. Desde que emancipou-se de Vacaria, em 1987, a ideologia política de Ipê privilegiou a agricultura ecológica. Com o apoio da Emater, da Prefeitura e do Centro Ecológico, na década de 90 foram criadas 8 associações de agricultores ecologistas. Com o impulso, o segmento chegou a ter 103 famílias produtoras, embora hoje este número tenha se estabilizado em 60 famílias, que respondem pelo comércio semanal de 31 toneladas de alimentos agroecológicos (entre frutas, legumes, grãos, tubérculos, verduras, suco de uva, extrato de tomate e geléias).

Fazendo jus ao título, Ipê mostrou-se exemplar no acolhimento do Encontro Ampliado, e foi fundamental para o sucesso deste. Uma parte significativa da população, representada pelos funcionários da Prefeitura, da Escola Frei Casemiro Zafonatto, da Associação de Universitários e do GAAB (Grupo de Apoio Amigos do Bem, entre outros), envolveu-se nas incontáveis tarefas de organização, inscrições, recepção, transporte, acomodações, segurança e assistência de saúde demandadas pelas caravanas, que ocuparam as ruas da cidade em passeata na manhã do dia 13.

Crioulos X Transgênicos

Na Praça da Igreja Matriz foi montada a tradicional Feira de Saberes e Sabores, local de vendas e mostra da grande diversidade cultural e produtiva do movimento agroecológico. Produtos processados, mudas, publicações e artesanatos, tanto locais quanto de outras regiões, foram comercializados no espaço. E como agricultura se faz com sementes, e na Agroecologia as Crioulas são as grandes vedetes, uma das bancas da Feira de Saberes e Sabores foi exclusiva para este imensurável patrimônio genético. “Tenho 65 variedades Crioulas, de milho, feijão, ervilha, linhaça e pipoca”, explica Vilmar Menegat, agricultor de Ipê e aguerrido guardião das espécies nativas.

O horizonte é de ameaça, principalmente para o milhos crioulos de Vilmar. A polinização não respeita fronteiras e ocorre mesmo entre lavouras bem distantes. E os vizinhos dele já plantam o milho transgênico, cujo uso foi aprovado pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) desde o final do ano passado. Durante a Oficina “Desafio da Contaminação dos Transgênicos”, uma das 29 realizadas no Encontro Ampliado, o milho do Vilmar foi submetido à prova, através de um exame químico. “Ganhei o dia”, comemora ele, ao conhecer o resultado negativo quanto à transgenia. “Mas não sei até quando vai ser assim”, lamenta.

Agroecologia, ontem e hoje
A preocupação é pertinente, e foi abordada pelo Agrônomo Laércio Meirelles, do Centro Ecológico, durante a cerimônia de abertura do Encontro na tarde de 13/11. “Há 10 anos, o maior desafio era aperfeiçoar as práticas em Agroecologia, abrir mercados, coisas do tipo. Hoje, temos que voltar os olhos aos transgênicos e ao fato do Brasil ser o maior consumidor mundial de agrotóxicos”, exemplifica. Já Paulo Petersen, representante da ANA (Articulação Nacional de Agroecologia), comparou o movimento agroecológico a outras bandeiras históricas. “É a mesma luta do campesinato, que há 500 anos luta por um pedaço de chão e pela dignidade”, pondera.

Os grandes eixos de discussão da Agroecologia foram abordados em 6 Seminários,
Emoção na despedida
Na tarde de sábado ocorreram as 29 Oficinas, que representam o intercâmbio das práticas agroecológicas entre os participantes. Manejo de abelhas nativas, receitas com pinhão, papel de fibra de bananeira, extração de açaí da juçara, agrohomeopatia e adubação com pó de basalto foram alguns dos assuntos tratados. O Sr. Gentil Farias, que cultiva uma grande área em pleno perímetro urbano de Itajaí, ficou satisfeito ao conhecer a técnica de semeadura sobre papel. “Toalhas de papel são colocadas debaixo da terra dos canteiros, evitando que cresça o mato. É maravilhoso, vou testar na minha roça”, comentou ele, sobre a novidade aprendida em uma das Oficinas.

A plenária final ocorreu no domingo (15/11) de manhã, num clima de comoção visível em muitos dos olhares carregados de lágrimas. Com a voz embargada, o prefeito Carlos Zanotto declarou que a cidade continuará aberta ao movimento agroeocológico – na solenidade de abertura do Encontro, ele havia entregue a “chave de ouro” aos presentes. Em seu último gesto de um acolhimento impecável, o município distribuiu dezenas de mudas de Ipês, a árvore-símbolo, aos presentes. Nos solos de vários municípios do Sul do Brasil, e também da Costa Rica, Bolívia, Peru e México (alguns dos países presentes), as raízes do Encontro Ampliado seguirão vivas, até que um dia tornem-se vistosos e floridos Ipês.

O próximo Encontro Ampliado ocorre em 2011, no Litoral Catarinense.


   
 

Cursos

12/11
Extrativismo e Sistemas Agroflorestais - aspectos legais
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