Notícias
 
( 22/08/2008 ) Seminário Internacional sobre Soberania Alimentar - entrevista com Perry Jones da Equipe SARO
 




“Soberania Alimentar é o direito dos povos a alimentos nutritivos e culturalmente adequados, acessíveis, produzidos de forma sustentável e ecológica e seu direito a decidir seu próprio sistema alimentar e produtivo.”

Esta declaração assumida como marco orientador das ações da Heifer Internacional, foi a base dos trabalhos do Seminário Internacional sobre Soberania Alimentar, realizado entre os dias 11 e 16 de agosto em Torres, litoral norte do Rio Grande do Sul.

Durante os trabalhos, os 75 delegados de 8 países, representando 17 entidades, intercambiaram experiências e discutiram encaminhamentos que viabilizem avanços nos projetos contra a fome e a pobreza desenvolvidos nas Américas pela Heifer Internacional.

Na segunda-feira, à noite, foram realizados a mística e a abertura oficial do evento.

Na terça-feira 12, pela manhã, os participantes visitaram as propriedades das famílias Fernandes, Strege Evaldt e Roldão, em comunidades de municípios da região. Também conheceram a sede do Movimento de Mulheres Camponesas, em Três Cachoeiras, a Cooperativa de Consumidores de Produtos Ecológicos do mesmo município – Coopet e o escritório da Cooperativa de Produtores Ecologistas do Litoral Norte do RS e Sul de Santa Catarina – Econativa-, que fica junto à Coopet. À tarde, as delegações do Equador, Brasil e Argentina, Peru e Bolívia instalaram banners, painéis com fotos e mesas com alimentos da biodiversidade, artesanatos, roupas e materiais informativos sobre os projetos implementados em seus países.

Em Torres, visitaram a Casa da Economia Solidária, onde fica a Cooperativa de Consumidores de Produtos Ecológicos – EcoTorres-, a Biblioteca Eco-Social Hilda Zimmermann e um café ecológico. Um grupo foi na segunda-feira 11, e outro na sexta,16, conhecer principalmente a experiência da comercialização local através desta cooperativa de consumidores.

Quinta-feira, 14 de agosto, entre as 13 horas e 30 minutos e 17 horas, os delegados dividiram-se entre três localidades para partilhar as experiências em agricultura ecológica de seus países com agricultores, estudantes, professoras e público em geral em três seminários. Em Mampituba, mais de cem pessoas foram ao salão comunitário do Alto Rio de Dentro para o Seminário Água – Terra – Sementes – Base da Soberania Alimentar. Na comunidade do Santo Anjo da Guarda, em Três Cachoeiras, não foi menor o público que participou do Seminário Educando para a Soberania Alimentar. E na sede em Três Cachoeiras, 72 pessoas estavam no auditório da Prefeitura Municipal para o Seminário Soberania Alimentar e Agricultura Ecológica.

Na sexta-feira, 15, foram realizados a plenária e os encaminhamentos finais. À noite, o Seminário Internacional sobre Soberania Alimentar foi encerrado com uma mística organizada pela Equipe SARO, enfatizando nossa conexão com a Terra.

No sábado pela manhã, já em Porto Alegre, visitaram a Feira Ecológica da Coolméia, onde há mais de dez anos grupos e associações de agricultores e agricultoras ecologistas comercializam seus produtos diretamente aos consumidores da capital gaúcha.

O Seminario Internacional sobre Soberania Alimentar foi organizado pelas equipes SARO ( South American Regional Office – Heifer Internacional), Heifer Brasil – Argentina e Centro Ecológico.

A Heifer Internacional é uma organização não-governamental sem fins lucrativos, com presença mundial, que adota como missão “trabalhar com comunidades para erradicar a pobreza e cuidar da Terra”, desenvolvendo hoje programas e parcerias em mais de 40 países, contribuindo para a construção de um mundo de comunidades que convivem em paz e compartilham equitativamente os recursos de um planeta saudável.

Leia agora a entrevista com Perry Jones,diretor regional de SARO. Com respostas fundamentadas em vivências concretas, fala sobre produção, consumo e um mundo melhor, mais justo e preservado para todos.

Por que a Heifer escolheu Torres para sediar este seminário?

Torres foi escolhida porque está localizada em uma parte do país e do continente que é reconhecida por ter feito avanços significativos na produção agrícola susentável - tanto ambientalmente quanto socialmente - e tem feito avanços em unir essa produção sustentável com consumo consciente, ligando os agricultores com mercados locais. A possibilidade de o hotel e os restaurantes fazerem uso de alimentos agroecológicos produzidos localmente foi um dos aspectos mais importantes para decidir onde seria realizado o encontro. A Heifer e suas organizações parceiras acreditam muito no apoio ao comércio local que apóia agricultores ecologistas locais.
E também a presença do Centro Ecológico em Torres foi especificamente a razão pela qual nós escolhemos Torres como sede do encontro.

Que impressão você vai levar do que foi visto nessa região?

Era um pouco arriscado para Heifer decidir trazer delegados internacionais para o RS e Torres porque eles vêm de realidades muito diferentes e desenvolveriam a falsa impressão de que estes avanços na agricultura sustentável podem ser encontrados em todo Brasil. Todo o grupo ficou animado ao ver as variedades de produtos locais e a sinceridade dos agricultores da região de Torres em partilhar sua energia e histórias com seus parceiros das Américas.
A cidade de Torres foi um local perfeito para um encontro internacional. O comércio local foi muito favorável e trabalhou duro para fornecer uma experiência agradável e produtiva para os visitantes convidados. Torres tem tudo que você quer em uma escala muito pequena e acessível e com uma atmosfera de cidade pequena.

Que experiência mais chamou sua atenção?

Para mim duas experiências foram muito importantes. Uma foi visitar uma propriedade local e ver a enorme diversidade de produção. Lá desfrutamos de uma refeição inacreditável, com talvez quinze a vinte diferentes tipos de alimentos e somente dois ingredientes não tinham sido produzidos naquela propriedade. O segundo mais importante aspecto da experiência, para mim, foi sentimento geral de solidariedade entre diferentes ONGs e agricultores e organizações indígenas presentes.Enquanto o grupo era relativamente pequeno em tamanho, o número de pessoas representadas pela delegação que estava aqui era de centenas de milhares. Havia líderes de populações camponesas e indígenas que representam regiões inteiras em alguns países. E todo mundo está trabalhando de forma solidária e com um objetivo comum:um planeta mais sustentável que conecte agricultores ecologistas e organizações de agricultores com consumidores informados e responsáveis e tentativas de encorajar governos locais e nacionais a criar as condições para que isso aconteça.

Você acha que o trabalho que está sendo desenvolvido aqui, com agricultores e consumidores – pode vir a inspirar outros projetos apoiados pela Heifer, em outros países?

O trabalho feito na região reflete claramente a visão do que estamos tentando atingir em nossos muitos projetos e parcerias desde o Canadá até a Argentina no Programa das Américas da Heifer Internacional. Isso precisa ser massificado tanto no Sul do Brasil como no restante das Américas, mas a experiência daqui nos dá uma enorme esperança de que essa visão seja possível de alcançar. Há um grande número de exemplos bem sucedidos nas Américas do Norte e do Sul e Torres foi naturalmente um lugar para sediar tanto os desafios quanto os exemplos do que está dando certo.

As sementes transgênicas podem ajudar a acabar com a fome no mundo?

Os transgênicos têm sido vistos como uma resposta tanto para os interesses comerciais – que os vêem como uma oportunidade para gerar lucro – como para aqueles que vêem o problema da fome como a simples necessidade de produzir mais alimento para as pessoas comerem. Contudo, como nós vimos em Torres, pequenas e diversificadas propriedades são capazes de manter altos níveis de produtividade combinando o conhecimento tradicional com práticas para melhorar o solo e o manejo dos cultivos e então conectar tudo isso com os mercados locais.
Os transgênicos reduzem os mais preciosos recursos do nosso planeta a uma oportunidade de negócios. Sementes crioulas, biodiversidade, nossos continentes e milhões de pequenos agricultores correm o risco de serem destruídos e substituídos por fazendas industriais gigantescas e campos sem fim de cultivos químico e geneticamente contaminados que são tão arriscados para a terra quanto para os consumidores.

É possível alimentar milhões de pessoas com alimentos produzidos por tecnologias sustentáveis?

Em um sistema agroeocológico e equilibrado, a água é usada de forma mais eficiente e poucos insumos externos são demandados, e o solo realmente fica mais fértil com o tempo. Na agricultura convencional, a Terra é drenada de elementos vitais como água e matéria orgânica, e os minerais são repostos com químicos que vêm de indústrias de algum lugar do mundo. Descoberto e sem matéria orgânica, a retenção de água é prejudicada e sistemas de irrigação intensiva são necessários, desviando água de rios e lagos, drenando aqüíferos e competindo com o abastecimento de água para as pessoas.
A agricultura diversificada e em pequena escala tem sustentado as populações do planeta por milhares de anos e ao perder essa conexão vital entre a comida que comemos e quem a produz estamos perdendo as conexões sociais mais importantes para a Terra. Ao aproximar pequenos agricultores e consumidores, estamos sendo capazes de manter essa conexão para a Terra através do consumo dos seus produtos.Imagine um mundo onde perdemos a conexão com a fonte da vida e você vai entender como o grande agronegócio está promovendo práticas agrícolas de produção que contaminam a comida, envenenam os rios com pesticidas e eliminam a capacidade da terra de se regenerar, olhando somente para o aumento de seus lucros.Na maioria dos lugares onde existe fome, a causa é na verdade a injusta distribuição de terra ou práticas insustentáveis de produção. E também porque não existe acesso a terras cultiváveis e insumos agrícolas ou porque os agricultores têm tentado replicar em uma pequena escala o modelo da monocultura e do agronegócio que é insustentável, levando as pessoas a produzir para vender, tornando suas famílias dependentes do mercado internacional de comodities e as faz muito mais vulneráveis a pestes, secas,etc.o modelo insustentável do agronegócio coloca os agricultores em um modelo de produção que exige o uso de venenos em suas terras e no nosso alimento e demanda insumos externos caros, criando um ciclo dependente de crédito e débito até que muitos deles são simplesmente forçados a vender suas terras ou estas lhes são tomadas porque eles não são nem mesmos capazes de cobrir os custos de produção.
Que tipo de mundo queremos deixar para nossos filhos e netos?

No Brasil há um pensamento de que se queremos desenvolvimento e empregos para acabar com a pobreza, devemos deixar para depois o cuidado com a Terra. O que você pensa disso?

Esse é o resultado da perda do nosso senso de conexão com a Terra e a perda do nosso entendimento de que a Terra é que sustenta nossa existência e bem-estar. No modelo de agricultura corporativo, somente as margens de lucro para a corporação são considerados. Não o bem-estar da Terra ou da spessoas que vivem nela. Quando nós não cuidamos da Terra, prejudicamos sua habilidade de cuidar de nós, reduzimos sua capacidade de se regenerar e quase sempre causando ou pelo menos intensificando desastres ambientais como inundações,, aquecimento global, etc., o que acaba afetando os seres humanos, mesmo aqueles que fazem sua parte para cuidar da Terra. A moderna socidade industrializada está tão desconectada da Terra, que parece que não temos consciência do impacto que nosso jeito desequilibrado de viver está tendo sobre ela.

Por que consumidores urbanos deveriam se preocupar com o tema Soberania Alimentar?

Neste sentido consumidores são definidos como “pessoas que comem”. Se não estamos interessados em fazer nossa parte para ajudar os pequenos agricultores, recuperar e proteger o planeta, estimulando as economias de nossas comunidades a comer um alimento que é saudável para nossas famílias (e para quem produz esse alimento, que servem o mesmo alimento para suas famílias diferente das fazendas corporativas), nós decidimos isso todas as semanas quando vamos ao mercado. Cada real que é gasto é como um voto a favor do tipo de mundo que queremos ver. Se você compra alimentos produzidos localmente de uma forma sustentável, você está investindo na vitalidade da sua comunidade, no bem estar das terras onde seus filhos vão brincar e na proteção da água que você vai beber. Sem consumidores, os pequenos agricultores locais não têm mercado, e este mercado é a chave para a viabilidade econômica da produção agreocológica.

Nesse sentido, você teria alguma sugestão para os consumidores de Torres e região?

Apóiem a vida da sua própria comunidade comprando dos agricultores locais. Conheçam estes agricultores e de onde vem o alimento que você come! Muitos agricultores ficariam felizes em mostrar suas propriedades, como eles trabalham duro e têm orgulho disso.
Comer alimentos produzidos localmente é melhor para nossas comunidades, melhor para a Terra e mais saudável para nossas famílias.



As fotos são de Maria Aparecida Oliva.


   
 

Cursos

20/11
Plenária do Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia
21/11
Curso Princípios Básicos em Agricultura Ecológica


 

Ipê-Serra - Rua Luiz Augusto Branco, 725 - Bairro Cruzeiro / Cep: 95.240-000 / Ipê - RS / Fone: 0xx (54) 3233.16.38 / E-mail: serra@centroecologico.org.br
Litoral Norte - Rua Padre Jorge, 51 / Cep: 95.568-000 / Dom Pedro de Alcântara-RS / Fone/fax: 0xx (51) 3664.02.20 /E-mail:litoral@centroecologico.org.br