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( 15/10/2007 ) Curso Agroecologia: Energia, Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais
 


Um dos paradigmas da agricultura convencional diz respeito à produtividade e consequentemente à capacidade de alimentar uma população mundial cada vez mais numerosa.
O mito da produtividade deste sistema cai por terra diante de estudos como os da Estação Experimental Índio Hatuey, vinculada à Universidade de Matanzas e ao Ministério da Educação Superior de Cuba e responsável pela pesquisa e desenvolvimento de sistemas agropecuários sustentáveis. Em 15 anos de trabalho, a instituição vem apoiando a implementação de uma agricultura integrada, que combina diversidade funcional em diferentes escalas, resultando em propriedades que emitem menos gases de efeito estufa, investem menos energia na produção de alimentos ( produzem mais calorias do que são consumidas para produzir), fixam mais carbono, oferecem alimentos saudáveis recuperando e preservando os recursos naturais.
Estas foram algumas das informações apresentadas nas palestras do agrônomo Fernando Funes Monzote, no Centro de Pastoral em Dom Pedro de Alcântara (RS), durante o curso Agroecologia: Energia, Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais, realizado pelo Centro Ecológico nos dias 11 e 12 de outubro.
O curso teve também a participação de Manuel Amador e Jonathan Castro, agrônomos e especialistas em clima da Cedeco - Corporação Educativa para o Desenvolvimento Costarricense. Desde 2003 esta ONG vem implementando um projeto de pesquisa sobre a capacidade da agricultura orgânica de mitigar os gases de efeitos estufa.
Diferentes entidades enviaram representantes e apoiaram a realização do evento: Acevam ( Associação dos Colonos Ecologistas do Vale do Mampituba - SC), AOPA (Associação de Agricultura Orgânica do Paraná), AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa – PR), Cedeco - Corporação Educativa para o Desenvolvimento Costarricense
Cipae (Comissão de Igrejas para Ajuda de Emergência – Paraguai), Estação Indio Hatuey - Universidade de Matanzas – Cuba, Floresta Nacional de Três Barras – Ibama – ICMCB (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Fundação Rureco (Fundação para o Desenvolvimento Econômico Rural do Centro-Oeste do Paraná), IMCA – Brasil ( Instituto Morro da Cutia – RS), INCA ( Instituto Nacional de Ciências Agrícolas), PDA/ MMA.
O Curso Agroecologia: Energia, Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais teve o apoio do KFW - Kreditanstalt für Wiederaufbau; PDA e Ministério do Meio Ambiente.

Confira abaixo a entrevista de Jonathan Castro, por e-mail:

Existe mesmo essa relação entre o aumento da concentração de gases produzidos pela atividade humana na atmosfera e o aumento da temperatura global?

Indiscutivelmente sim. Organismos internacionais, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, têm elaborado informes detalhados com dados de medições diretas e indiretas de concentrações de gases de efeito estufa que confirmam uma relação diretamente proporcional entre o aumento de sua concentração na atmosfera e o aumento da temperatura média da superfície terrestre.

Quais são os principais gases de efeito estufa e quais as diferenças entre eles?

Os principais gases são o dióxido de carbono – CO2, que se deriva principalmente o uso de combustíveis fósseis e da queima de florestas; o metano – CH4 – muito relacionado à pecuária e ao cultivo de arroz irrigado e o óxido nitroso –N2O, que se deriva de atividades industriais e da fertilização nitrogenada na agricultura convencional. A diferença principal entre eles é uma característica chamada “Forçamento Radiativo”. O Forçamento Radiativo é o que nos indica a capacidade de cada gás em gerar aquecimento pela sua presença na atmosfera por um período de tempo. Para um período de cem anos, e tomando como base o CO2, este possui um potencial de um. O metano tem um potencial de aproximadamente 40 e o óxido nitroso de 290. Isto nos diz que estes últimos dois gases têm um efeito potencial de 40 e 290 vezes respectivamente sobre o CO2.

Que atividades poderiam ser consideradas vilãs em termos de emissão de gases para atmosfera?

Com o modelo de desenvolvimento atual da humanidade, quase qualquer atividade cotidiana está irremediavelmente vinculada à emissão de gases. O consumo de bens de origem industrial – de fábricas que emitem gases de efeito estufa, o uso da eletricidade, a necessidade de transporte, entre muitas outras, estão direta ou indiretamente relacionadas à emissão de gases. A resposta não é deixar nossa vida cotidiana, mas sim ser mais consciente e fazer uso comedido dos recursos e evitar sempre o desperdício.

Como a agricultura convencional ( que usa agrotóxicos e fertilizantes industrializados) influencia neste processo?

Muitas das atividades desenvolvidas na agricultura estão relacionadas com a emissão de gases de forma direta ou indireta. Se estima que de 10 a 12% do total de emissões derivadas de atividades humanas são geradas pela agricultura.
Antes de iniciar os ciclos produtivos na propriedade, já existe contaminação por gases de efeito estufa pelas indústrias encarregadas de produzir os insumos – herbicidas, inseticidas, fertilizantes. Igualmente o transporte destes insumos para as propriedades está relacionado ao uso de combustível.
A fertilização nitrogenada dos solos aumenta o fluxo de gás NO2 ( óxido nitroso) até a atmosfera. Como falamos antes, a pecuária e o cultivo de arroz irrigado são fontes importantes de gás metano – CH4. Ao final, o transporte de produtos até os mercados implica na emissão de gases.

E a agricultura orgânica?

Na agricultura orgânica as mesmas atividades podem gerar os mesmos gases, mas devido à ideologia agroecológica - onde há um maior respeito aos ciclos naturais – a pressão sobre os recursos não é tão forte e o fluxo de gases não são tão distorcidos.

Já existem mecanismos para apoiar financeiramente agricultores orgânicos por serviços ambientais prestados para o planeta?
Ainda não. Os sistemas atuais de reconhecimento ainda não têm conseguido gerar estruturas que permitam identificar os serviços ambientais da agricultura orgânica.
O cálculo destes serviços é o primeiro passo que se deve desenvolver para poder quantificar os benefícios e dar um apoio real e concreto.

Podemos afirmar que os agricultores e agricultoras ecologistas aqui do litoral, estão prestando um serviço ambiental para o planeta?

Claro que sim. Em ocasiões anteriores tive oportunidade de visitar propriedades de produtores de banana e outros alimentos onde os sistemas agroflorestais estão trazendo um benefício em fixação de carbono. Em estudos feitos em parceria com o Centro Ecológico, pudemos determinar também uma alta eficiência no uso da energia destes sistemas no litoral. O importante será agora compartilhar, adaptar e criar métodos para poder determinar e quantificar estes benefícios.

Como as entidades que trabalham com agricultura ecológica estão se organizando frente ao problema do aquecimento global?

As ONGs estão assumindo um papel fundamental na inserção dos pequenos e médios produtores ecologistas na solução do problema. Provocam um debate em nível de sociedade e de esferas políticas para o futuro reconhecimento dos serviços ambientais. Por outro lado, estabelecem alianças para desenvolver investigações sobre metodologias e técnicas de determinação de serviços ambientais.

O que você poderia falar sobre o uso e a eficiência do biogás?

O biogás é um componente muito importante na propriedade e que pode aumentar a eficiência no uso da energia e reduzir a dependência de outros recursos como lenha, carvão, diesel, eletricidade. Por outro lado aproveita recursos que seriam desperdiçados e gerariam problemas, como o esterco. Um aspecto importante é que o biogás tem a capacidade de transformar um gás de efeito estufa de alto forçamento radioativo, que é o metano ( 40 vezes) em um gás menos prejudicial – dióxido de carbono – CO2 =1.


   
 

Cursos

20/11
Plenária do Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia
21/11
Curso Princípios Básicos em Agricultura Ecológica


 

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