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( 22/03/2003 ) O mercado de orgânicos no mundo, entrevista com Laércio Meirelles sobre sua visita à Biofach 2003.
 


Em fevereiro de 2003, o coordenador do Centro Ecológico, agrônomo Laércio Meirelles, esteve na Alemanha visitando a Biofach, a maior feira de produtos orgânicos do mundo. Nessa entrevista à revista Agroecologia & Agricultura Familiar, Laércio fala sobre o que viu na Biofach, analisa o mercado de orgânicos e os caminhos da certificação.
A viagem foi financiada pelo Maela - Movimento Agroecológico da América Latina e do Caribe e pelo MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário, em apoio à Rede Ecovida de Agroecologia e ao Centro Ecológico.


A partir de sua ida a Biofach, como está o chamado mercado de produtos orgânicos hoje no mundo?

Bom, primeiro gostaria de esclarecer o que é a Biofach. É a maior feira de produtos orgânicos do mundo. Realiza-se na Alemanha desde 1990. Ali se encontra boa parte dos vendedores e compradores de produtos orgânicos de exportação em atividade no mundo, principalmente os Europeus.
O mercado de produtos orgânicos hoje é de 20-25 bilhões de dólares. Europa e USA respondem por mais de 80% deste total. Ainda que o valor seja respeitável, representa uma fatia inferior a 1% do mercado mundial de alimentos. O país com maior área de cultivo orgânico é a Austrália, com mais de 10.000.000 hectares, seguido da Argentina com mais de 3.000.000 hectares. Estas áreas são fundamentalmente de pecuária extensiva. Nas estatísticas oficiais o Brasil está em 13º lugar, com cerca de 270.000 hectares de cultivos orgânicos. Já em relação ao nº de agricultores estamos em 9º lugar, com mais ou menos 15.000 agricultores certificados como orgânicos. A Itália com 55.000, seguido da Indonésia com 45.000 ocupam a 1º e 2º posição em n° de agricultores.
Voltando ao mercado de produtos orgânicos, duas coisas me chamaram a atenção. A primeira é um certo consenso entre os analistas que o crescimento do mercado dá sinais de cansaço. O mercado segue crescendo, mas em taxas cada vez menores. A segunda é em relação ao prêmio orgânico, ou seja, o valor pago a mais pelo produto orgânico em relação ao similar convencional. Também dá sinais de cansaço. Ouvi do vice-presidente mundial da IFOAM, Pipo Lernould, que é uma grande ilusão dos produtores e comerciantes acreditarem que este sobre-preço irá perdurar por muitos anos mais.

Quer dizer que o mercado para produtos orgânicos pode parar de crescer e os preços ainda baixarem?

Que os preços deverão abaixar, sim, é uma tendência verificada nos últimos anos. Olha, estamos falando de um mercado que é o mercado de exportação, das grandes redes de supermercados, e não dos mercados o qual a maior parte dos grupos da Ecovida trabalha, as feiras, pequenas lojas e etc. Quanto ao mercado parar de crescer, tudo depende da perspectiva com a qual se constrói este mercado. Se quisermos que os produtos orgânicos sejam mais um de tantos segmentos de mercado, um nicho como dizem, bom então podemos seguir com os preços altamente diferenciados, com as normas cada vez mais rigorosas e com as exigências crescentes das certificadoras. Se ao contrário, queremos pensar em sair da marginalidade e termos uma agricultura orgânica para todos tanto na produção quanto no consumo, bom então temos que pensar em outras bases para este mercado.

Mas e o aumento da demanda por produtos limpos que tanto ouvimos falar? Existe ou não existe?

Sim, claro que existe. E a Biofach é uma prova disto. São 33.000 metros quadrados de stand. Mais de 3 hectares. É possível encontrar tudo em termos de alimento e fibras e uma visita a esta feira termina definitivamente com perguntas do tipo: é possível produzir isto ou aquilo sem agroquímicos? E a presença de compradores também é enorme na feira. Aqui estou falando em tendência de queda nas taxas de crescimento, não de estagnação do mercado. Quer um exemplo? O crescimento do consumo de produtos orgânicos nos supermercados Sainsbury, na Inglaterra, foi de 40% ao ano entre 1998 e 2000. Em 2001 cresceu 25%, em 2002 16%. È um crescimento ainda extraordinário, mas cada vez menor. Esta tendência está relatada em outros países europeus também. Segundo alguns especialistas estas taxas tendem a seguir decrescente. Mas ainda temos muito espaço para o crescimento. E se não cresce ainda mais é por que os envolvidos com a produção e comercialização de produtos orgânicos começam a cair em armadilhas criadas por eles próprios. É importante lembrar que estes números se referem muito mais aos países do norte. Nos países subdesenvolvidos temos poucas estatísticas, os dados não são muito confiáveis, e principalmente, existe todo um trabalho com produção e consumo de produtos orgânicos que não é contabilizado.

Um dos serviços prestados pela Rede Ecovida de Agroecologia é o que chamamos de certificação participativa. Qual a possibilidade de um processo desta natureza ser aceito pelos comerciantes de produtos orgânicos?

Existem dois caminhos para responder esta pergunta. Em todos os dois devo antes fazer uma constatação: a certificação hoje é encarada como um problema tanto pelos produtores quanto pelos compradores finais de produtos orgânicos. As exigências cada vez maiores, os altos preços, a falta de reconhecimento mútuo entre boa parte das certificadoras e falhas ocorridas no processo de certificação, que se tornaram escândalos no mundo orgânico, são alguns dos problemas apontados. E todos buscam alternativas mais viáveis, principalmente para os agricultores familiares. A Rede Ecovida e sua certificação participativa é vista como um caminho possível, como algo novo neste mundo da certificação.

Sim, mas esta novidade é reconhecida? E os dois caminhos que mencionastes?

É vista com muita simpatia, mas daí a ser reconhecida... Bom, como eu dizia, um dos caminhos, de certa forma o mais fácil, é a Rede Ecovida fazer um grande esforço para se mostrar tão confiável quanto de fato ela é. No mundo da certificação, e não falo apenas da certificação orgânica, vale mais parecer honesto do que de fato ser honesto. Assim, a Rede, para buscar reconhecimento neste mundo, deve radicalizar no que tange aos registros. Todas as visitas das comissões de ética, todas as reuniões dos grupos, o manejo feito pelos agricultores, as normas de produção, a participação de todas as partes interessadas, tudo deve estar super documentado, organizado, para que quem queira possa fazer as averiguações que desejar.
Outro caminho é a Rede apostar em um procedimento onde será tão documentada e organizada em seus papéis quanto esteja ao alcance dos agricultores e das agricultoras o fazerem. Que esta documentação não seja nem cara, nem um fardo na vida de cada integrante da Rede. Afinal, um princípio básico da Agricultura Ecológica é que tudo o que fazemos deve ser prazeroso... Neste último caso, podemos sim encontrar parceiros comerciais no Brasil e fora que nos reconheçam como orgânicos, mas seguramente não serão tantos quantos na primeira opção. Esta escolha é também política e deve ser feita integrando vários fatores dentre eles nossa escolha preferencial de mercado.

Como assim?

Voltamos a questão do mercado. Qual o mercado preferencial da Rede? Como já disse, esta decisão de certa forma já foi tomada, na história dos grupos que hoje fazem parte da Rede. É a opção pelo mercado local, pelas feiras, pelas pequenas lojas, pelas cooperativas de consumidores, pelos pequenos e médios supermercados. Neste caso, podemos ter um processo de certificação que atende as exigências deste universo, que é o segundo caminho que mencionei anteriormente. Se nossa opção preferencial fosse a exportação ou as grandes redes de supermercados, talvez tivéssemos que traduzir nosso processo para a linguagem deste universo, e isto nos custaria dinheiro e tempo, ou seja, energia que talvez possa melhor empregada em outras esferas.

Este mercado que mencionas como sendo a opção histórica da Rede pode consumir toda a produção dos agricultores, ainda mais se pensamos que mais e mais agricultores optam pela agricultura ecológica a cada dia?

Esta é uma ótima pergunta. Não tenho a resposta. Mas podemos fazer algumas reflexões. Primeiro que este mercado, que podemos chamar de alternativo, tem crescido significativamente. Há 13 anos atrás começamos com a primeira feira de agricultores ecologistas, em Porto Alegre, organizada pela Cooperativa Ecológica Coolméia. Hoje existem, não sei, mais de 100 feiras nos três estados do Sul. E tantas outras iniciativas que surgem quase que diariamente. Assim, que, se não somos tão grandes, também já não somos mais tão pequenos assim...
Outro ponto a se considerar é que este mercado alternativo é um melhor negócio para os agricultores. Uma vez que um dos seus princípios é diminuir os elos de intermediação que separam agricultor do consumidor, há uma tendência ao preço ser mais recompensador para o agricultor sem onerar o consumidor.
Agora, na Biofach, vendo aquele mundo do mercado de produtos orgânicos, reforcei uma posição que já tinha. Este mercado que vem sendo construído, dos produtos caros, das embalagens caras e poluidoras, do marketing pelo marketing e da competição exacerbada não mantém relação com os objetivos que nos fizeram optar pela agricultura ecológica, que eu não preciso aqui repetir. Em outras palavras quero dizer: não sei se com este mercado alternativo iremos vender toda a produção dos agricultores, mas é na construção destes canais que devemos gastar, se não toda, pelo menos a maior parte de nossa energia.

Existe chance deste mercado se massificar, da agricultura orgânica “sair da marginalidade”, como dissestes?

Acho que sim, mas como disse teremos que construir o mercado em outras bases e isto significa derrubar alguns mitos que foram se consolidando nos últimos 20 anos e que podem não ser válidos no mundo de hoje, ao menos em todos os contextos. Por exemplo, o mito do prêmio orgânico eterno ou da necessidade da certificação por auditoria em todos os produtos orgânicos. Resumindo, não podemos trabalhar este mercado com a lógica do nicho, por que então nossas ações “enicham” o mercado. Esta lógica cria as armadilhas que eu mencionava antes. Sou muito crítico em relação à certificação que aumenta custos, ao sobre preço que elitiza o consumo, às normativas que pasteurizam procedimentos, às embalagens que poluem, ao apreço por uma qualidade visual que exclui agricultores do “jogo” do mercado. E ainda existem os mitos no campo da produção do tipo custos altos da transição ou aumento no uso da mão de obra com a produção orgânica ou ecológica. Mas aqui não podemos aprofundar estes pontos. Se estivermos dispostos a rever estes conceitos, podemos sim massificar a produção e o consumo de produtos limpos.

E o consumidor? Obviamente para que o mercado cresça é necessário envolver mais consumidores, conscientiza-los do valor do produto orgânico. Quais estratégias para isto?

Tens toda a razão. Convidar o consumidor a fazer parte deste movimento que estamos criando é fundamental. Um comentário que ouvi mais de uma vez na Biofach é sobre a chamada teoria do pull – push (puxar – empurrar, em inglês): a produção orgânica deve ser incentivada a partir do consumo e não da produção. Ou seja, não empurrar a produção do produtor para o consumidor, mas este puxar a produção daquele. Isto está sendo pensado inclusive ao nível de políticas públicas. Não incentivar a produção, mas o consumo. A demanda estimulada levaria a um aumento da oferta. Até em subsidiar o consumo se fala. Bom, já há algum tempo falamos de ICMS diferenciado para produtos orgânicos.
Mas de fato é importante trabalhar para que o consumidor perceba o valor do nosso produto. Quanto às estratégias, bem esta não é uma pergunta fácil. Mas acredito que além de proporcionarmos facilidades em relação a informação, embalagens apropriadas, boa distribuição, etc, também devemos apostar em discutir com o consumidor seus deveres perante o consumo. É a discussão do consumo crítico, do consumo como ato político. Ao se consumir um produto se referenda determinado modo de produção. E o consumidor deve refletir sobre qual modo de produção ele quer apoiar ao consumir um produto.

Estamos terminando. Queres fazer mais algum comentário?

Não acho que não...Talvez apenas parabenizar a Ecovida. Acho que estamos em um bom caminho. Temos, com muita discussão e maturidade feito escolhas sensatas no campo da certificação e da comercialização. E não digo isto “apenas” do ponto de vista ideológico ou do politicamente correto. Em um sentido mais pragmático também, em relação ao mercado acho que a Ecovida tem acertado em suas escolhas. Nosso caminho para a certificação é um caminho hoje invejado por muitos. Claro, muito ainda tem que ser feito, mais que em outros, este é um campo onde ‘o caminho se faz ao andar”, mas nossos primeiros passos acho que são promissores. É isto aí.

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