Artigos

(12/04/2005) Juventude e agricultura ecológica no Rio Grande do Sul

A denominada modernização da agricultura se intensificou na região da Serra do Rio Grande do Sul, sobretudo a partir dos anos 70. Embora tenha sido limitada no que se refere à mecanização das operações de manejo agrícola, gerou uma crescente “quimificação” da agricultura, com a ampla adoção de adubos químicos, inseticidas, herbicidas e fungicidas. Esse processo aprofundou as distinções econômicas e sociais existentes entre as unidades produtivas. As famílias que tiveram acesso ao mercado e às políticas públicas conseguiram se manter “temporariamente” como agricultores familiares. As demais foram excluídas, inclusive da própria terra. Esse processo de exclusão social tornou-se ainda mais visível nos anos 80, com o agravamento da crise econômica.
Foi nesse contexto, e com a preocupação de gerar uma proposta que pudesse viabilizar a agricultura familiar, que começou o trabalho da Pastoral da Terra na região.
Durante a segunda metade dos anos 70 e primeira parte dos anos 80, a Pastoral orientou suas ações no sentido de conscientizar agricultores e agricultoras a respeito das causas de sua situação de pobreza e exploração. Incentivou a realização de experiências práticas que recobriam um leque de temas que iam desde mudanças de hábitos de higiene e de alimentação até a diversificação de culturas e estratégias de comercialização. Apesar do êxito dessas experiências, os agricultores continuavam sentindo necessidade de avançar em outros assuntos, entre eles o preço pago pelos seus produtos, os processos de degradação dos solos, o aumento de pragas e doenças nas lavouras e, sobretudo, as intoxicações das famílias com os venenos.
Percebeu-se que os jovens eram os que mais tomavam consciência e se sentiam cada vez mais insatisfeitos com a degradação ambiental e da saúde das famílias.
O início da parceria
Foi então que, no ano de 1985, surge o Projeto Vacaria no município de Ipê (RS), atualmente denominado Centro Ecológico, com o objetivo inicial de demonstrar a viabilidade técnica e econômica da agricultura ecológica, mediante a adoção de tecnologias alternativas orientadas pela filosofia da preservação ambiental e justiça social. Após três anos de experimentação e prática, em uma propriedade de 70 hectares, os técnicos então vinculados ao projeto buscaram uma maior inserção na comunidade. Nesse momento, por volta do ano de 1987, ocorre a aproximação entre a Pastoral e o Centro Ecológico, e se inicia um trabalho de difusão da proposta da agricultura ecológica junto aos agricultores familiares da região. Nesse processo o interesse em trabalhar esse novo modelo vem majoritariamente dos jovens que participavam da Pastoral.
No entanto, essa primeira fase de engajamento por parte desses jovens teve que passar por alguns obstáculos, entre eles o de convencer os pais a desenvolverem experiências em suas propriedades. Houve casos em que jovens fugiram de casa, condicionando o retorno à permissão de cultivarem uma área de forma agroecológica. É preciso dizer que nessa época não se conheciam referências práticas em agricultura ecológica consolidadas, mas os jovens estavam dispostos a serem também eles experimentadores desse novo caminho para a agricultura.
As primeiras reflexões
A agricultura ecológica surge, portanto, como uma forma de concretizar os anseios político-ideológicos que a Pastoral vinha trabalhando há tempo. Até esse momento havia apenas técnicas que atendiam de forma parcial a necessidade dos sistemas de produção da região, formados basicamente pelo cultivo de olerícolas e frutas.
A disposição inicial dessas pessoas em criarem alternativas gerou novas tecnologias de produção e a construção de canais alternativos de comercialização, o que exigiu dos jovens um tanto de perseverança, porque no começo o que se produzia e comercializava em uma feira, em Porto Alegre, não pagava o custo da viagem.
O interessante desse processo em relação à comercialização é a construção de uma nova relação com o mercado. A declaração de um jovem no início do trabalho com agricultura ecológica é bastante esclarecedora:
Antes a gente vendia para os atravessadores. Mesmo que o produto tivesse qualidade eles só falavam dos defeitos do produto para pagar menos. Na feira ecológica a relação é outra. O consumidor agradece porque nós estamos cuidando do meio ambiente e levando um alimento saudável para a família dele. Com isso (valorização do trabalho), não importava tanto quanto íamos receber.
O processo de criação de canais diretos de comercialização possibilitou o resgate por parte desses jovens do que significa ser agricultor. Em vez de destruir o meio ambiente, agora estavam fazendo um trabalho de preservação e promoção da saúde das pessoas. Esse fato gerou uma transformação na auto-estima deles, criando uma nova forma de se ver como jovem no meio rural.
Assim, a agricultura ecológica constituiu-se, desde aquela época, na principal estratégia de trabalho com a juventude rural na região.
Numa primeira fase surgiu a Associação dos Agricultores Ecologistas de Ipê e Antônio Prado (AECIA), que serviu de referência para a formação de outras associações na região. Em Ipê foram criadas posteriormente mais sete associações, cujas principais lideranças articuladoras da organização e constituição eram membros da Pastoral da Juventude, portanto jovens.
Esse processo de expansão da proposta ocorre da mesma forma por meio da Pastoral na região Litoral Norte do Rio Grande do Sul, nos municípios de Torres, Três Cachoeiras, Mampituba, Morrinhos do Sul e Dom Pedro de Alcântara, região de pequenos agricultores familiares onde os principais cultivos são o arroz, a banana e olerícolas. Lá também observou-se que maioria das pessoas que aderiam à agricultura ecológica era composta por jovens filhos de agricultores.
No entanto, hoje, a quantidade de agricultores, sobretudo jovens, que abandona o meio rural continua a ser extremamente alta. O esvaziamento e envelhecimento das comunidades rurais, a falta de mão-de-obra nas unidades produtivas e a desvalorização tanto econômica como social do trabalho com a agricultura apresentam-se como limitações, não apenas para os agricultores convencionais, mas também para aqueles empenhados na transição rumo a uma agricultura ecológica. É importante ressaltar que um estudo feito nos municípios de Ipê e Antônio Prado, nos anos de 1999 e 2000, demonstrou que a idade média dos agricultores ecologistas era significativamente menor do que a dos agricultores convencionais.
Constatamos que os jovens buscam alternativas para a permanência no meio rural desde que seja valorizado tanto o retorno econômico quanto o reconhecimento social pelo trabalho que desenvolvem. É nesse sentido que a agricultura ecológica tem feito a sua contribuição, porque concilia rendimento econômico com preservação ambiental e produção de alimentos saudáveis. E sendo estes dois últimos elementos considerados conceitos atuais e “modernos”, acreditamos que são eles os principais motivadores da participação dos jovens na agricultura ecológica.
A agricultura ecológica também tem se mostrado capaz de proporcionar a diminuição dos custos de produção. A mudança da base tecnológica da agricultura no espaço das unidades produtivas, juntamente com sua inserção em canais alternativos de comercialização, particularmente por meio da venda direta nas feiras, tem propiciado, de forma geral, a melhoria da renda das famílias e uma distribuição de ingressos monetários ao longo do ano, ampliando sua capacidade de investir na atividade agrícola.
Vale ressaltar outro aspecto do trabalho com agricultura ecológica e que se configura um retorno importante para os jovens: a inserção destes em uma nova ‘rede de comunicação’, que envolve novas relações que se estabelecem nos cursos, nas viagens de intercâmbio, no recebimento de visitas, no contato com diversos públicos na ocasião das feiras. Além de ampliar horizontes com o diálogo com novos potenciais parceiros, essa nova dinâmica cumpre também um papel desmistificador do urbano, já que muitos desses espaços de intercâmbio envolvem relações com a cidade ou com pessoas de origem urbana.
O que estamos pensando hoje
Atualmente, após 17 anos dessa fase inicial de expansão da proposta da agricultura ecológica, tanto a Pastoral quanto o Centro Ecológico fazem uma avaliação da necessidade de reforçar um trabalho com a juventude rural. Sabemos que a agricultura ecológica é uma opção consistente para a permanência dos jovens no meio rural, proporcionando-lhes qualidade de vida. Mas entendemos que as necessidades dos jovens são mais amplas, e passam por trabalhar sua identidade, sua auto-estima e pela construção das condições básicas para viabilizar a estrutura que um jovem atualmente requer no que diz respeito a educação, saúde e lazer.
É nessa perspectiva que estivemos desenvolvendo atividades mais coordenadas, em apoio às de formação realizadas pela Pastoral da Juventude ao longo de 2004, com foco especial nos filhos de agricultores ecologistas, com o objetivo de criar um trabalho com a segunda geração de agricultores. A idéia é fazer uma reflexão com esses jovens, sobre os limites presentes em relação à agricultura como todo e à ecológica em particular, visando a construção de alternativas que possam viabilizar a manutenção dos jovens com qualidade de vida no meio rural.
A principal estratégia que temos adotado para proporcionar melhores condições a esses jovens para pensar em sua condição atual no meio rural consiste em uma série de atividades de formação compreendendo cursos, oficinas e retiros. Essas atividades possibilitam a reunião desses jovens que se encontram bastante dispersos no meio rural, oportunizando assim um momento rico em relação à troca de experiências e à criação de uma proposta mais coletiva para a juventude, além de fortalecimento pessoal.
Entre as atividades desenvolvidas, está o encontro de jovens realizado em setembro de 2004 no Ipê, no qual estiveram presentes cerca de 150 pessoas, entre jovens e agricultores ecologistas. Esse encontro foi atividade unificadora de todas aquelas desenvolvidas durante o ano na região Serra. Com o propósito de debater a condição da juventude e as alternativas existentes, o evento contou com painéis abordando temas mais abrangentes, como políticas públicas para a juventude, contexto da agricultura familiar e desafios atuais para a juventude, e oficinas, onde se objetivou instrumentalizar os jovens para o trabalho em suas comunidades, tendo como principal encaminhamento reforçar o trabalho de organização dos jovens dentro de suas comunidades.
Concluindo, pensamos que é necessário fortalecer a organização dos jovens no meio rural para que, com a sua participação, sejam elaboradas as políticas necessárias para viabilizar a sua permanência no local de origem com qualidade de vida, que passa por melhores condições de educação, saúde, acesso a terra, renda e lazer.
Pe. João Bosco Schio – Pastoral da Terra
Pe. Celso Cicconetto – Pastoral da Terra
Luiz Carlos Scapinelli – Pastoral da Juventude e membro da Associação de Agricultores Ecologistas Pereira Lima, Ipê-RS.
Ricardo Barreto – Membro da Equipe Técnica Centro Ecológico.

 voltar

 

Notícias 

Boletins divulgam receitas naturais para higiene pessoal e doméstica

Clique aqui para baixar os boletins


Alimentos da época ajudam a restaurar conexão com a natureza

Mais que economia ou saúde,  quem prefere alimentos frescos, agroecológicos e da safra está, na verd...


 

Ipê-Serra - Rua Luiz Augusto Branco, 725 - Bairro Cruzeiro / Cep: 95.240-000 / Ipê - RS / Fone: 0xx (54) 3233.16.38 / E-mail: serra@centroecologico.org.br
Litoral Norte - Rua Padre Jorge, 51 / Cep: 95.568-000 / Dom Pedro de Alcântara-RS / Fone/fax: 0xx (51) 3664.02.20 /E-mail:litoral@centroecologico.org.br